Um caso de estudo
Um caso de estudo

O novo árbitro que não arbitra

Será que, por começarem muito cedo na arbitragem, não têm hipótese de conhecer, realmente, o jogo? O que é facto é que, com VAR, demasiados árbitros abdicaram de arbitrar, mandando seguir o jogo independentemente de haver falta, seguros de que se o erro for importante a Cidade do Futebol intervirá. E o mais grave é que, realmente, a sensação que dão é de não fazerem a mais pálida ideia do que está a acontecer dentro do campo.

Os árbitros portugueses de futebol foram criticados, durante décadas, por protagonizarem «concertos de apito» durante os jogos, quebrando o ritmo às contendas e o tempo útil aos confrontos.

Com a chegada do VAR e a mudança geracional na arbitragem, estamos a assistir a uma fase em que passámos do 80 ao 8. Há árbitros (não todos, mas mesmo assim demasiados) - e o trabalho de Gustavo Correia em Famalicão foi paradigmático - que em nome de uma alegada modernidade, pura e simplesmente não assinalam faltas, independentemente destas terem ocorrido, e ainda fazem aquele gesto irritante e soberbo de mandar levantar o jogador que sofreu a infração, como que a dizer a quem o vê, «este pensava que eu ia na conversa…» 

Então, o que sucede? Normalmente, como há VAR, este intervém nos casos permitidos pelo protocolo, e minimiza os danos. Em Famalicão, foi o VAR a ‘salvar’ o árbitro no penálti sobre Ivanovic e na expulsão de Otamendi, não tendo meios para corrigir a decisão de «dar» canto quando era pontapé-de-baliza, no lance que veio a dar origem ao segundo golo dos donos da casa. E a decisão de Gustavo Correia de apontar para o quarto-de-círculo, naquela circunstância, também tem que se lhe diga. Percebo se o árbitro vê e interpreta num determinado sentido; já não compreendo quando o árbitro vê o que não aconteceu. Naquele caso específico, tinha de ter visto a bola a bater em Barreiro, para assinalar canto, e a verdade é que não viu nada, porque o internacional luxemburguês não teve qualquer interferência no lance. Ora, se não viu (e isso é certo!), porque assinalou o que não viu? Por intuição?

Mas regressemos ao mais importante, que é esta nova forma de arbitrar por omissão, que revela uma falta de compreensão gritante do jogo. Há não muito tempo escrevi, neste espaço - e mantenho integralmente o que disse - que por força do VAR nunca houve tão poucos erros com influência no resultado como agora. De vez em quando lá vem a exceção que confirma a regra, e em Famalicão foi a grande penalidade cometida por Rodrigo Cunha (com 0-2) que o árbitro não viu (se escrevesse «não terá visto» estaria a colocar em causa a honorabilidade de Gustavo Correia, coisa que não faço), e o VAR desvalorizou (se o Conselho de Arbitragem não der uma explicação sobre este caso de jogo, estaremos a recuar muitos anos e a regressar aos tempos da opacidade).Mas o que mais me preocupa é constatar que, cada vez mais, uma quantidade tremenda de árbitros, muitos com as insígnias da FIFA, não fazem a mínima ideia do jogo, das caraterísticas das disputas, da forma como o pé é colocado nos duelos, da «malandrice» que importa reprimir, ou da casualidade que torna um lance mais espetacular. Talvez por começarem na arbitragem demasiado cedo, sem hipótese de conhecer o jogo por dentro; talvez por sentirem essa falta e tentarem maquilhá-la com uma arrogância que pretende transmitir a segurança que não sentem; talvez por acharem que não precisam de ser árbitros, porque para as grandes decisões há sempre o VAR.

Porém, a verdade, é que antecessores desta geração, sem um centésimo dos meios - e por mais defeitos associados que alguns, entre dezenas e dezenas, tivessem - percebiam tudo e revelavam intuição. Joaquim Campos, António Garrido, Carlos Valente, Vítor Pereira e Pedro Proença, por exemplo, para me ficar por uma lista minimalista da nata da arbitragem portuguesa, sabiam tudo do jogo. Hoje, há demasiados «cantores» que só são bons no «playback» e perdem o pé quando têm de mostrar os seus dotes nas atuações ao vivo. 

CARTAS

ÁS

André Villas-Boas - Depois de ter passado um ano a colar os cacos deixados pela gestão anterior, o presidente do FC Porto, além de ter pacificado as finanças do clube, foi capaz de construir um grupo competente, que venceu o 31.º título nacional com autoridade. As contratações de janeiro foram de quem sabe…

ÁS

Francesco Farioli - Há uns meses, em conversa com um ex-jogador de Farioli que esteve muito perto de assinar pelo FC Porto, este disse-me que o italiano , embora não conseguisse dar nota artística às suas equipas, era muito competente, pragmático e de boa relação com o grupo de trabalho. É campeão e está de parabéns.

ÁS

Diogo Costa - É, à légua, o melhor jogador dos novos campeões nacionais, pelo que dá, defensiva e ofensivamente, à equipa e pela liderança que exerce. Como Barrigana, Américo, Mlynarczik e Baía, já tem assento na história dos Dragões. Será, provavelmente, o primeiro alvo de cobiça dos «ricos» dos «Big Five.»

FOTOLEGENDA

CAMPEÕES. Foram três anos de jejum, muita polémica interna, e uma fratura que só foi curada na sequência das eleições de abril de 2024. Para lá dos méritos de Villas-Boas, Farioli e de todos aqueles que, dentro das quatro linhas, se sagraram campeões nacionais, creio que merece um destaque muito especial a forma como os adeptos do FC Porto, depois de uma temporada de 2024/25 que terá sabido a muito pouco, aderiram em massa à equipa na época seguinte, empurrando os dragões para o regresso, pela porta grande, à Liga dos Campeões. Os números do Dragão traduzem um estado de alma que devolveu o FC Porto ao portismo.

CAPA

José Mourinho nas bocas do mundo

Quando ainda está por saber se Mourinho e o Benfica vão manter a parceria em 2026/27, e se os encarnados estão sensíveis à vontade do técnico de ter um vínculo mais vasto, o «Special One» é notícia em Espanha pelo desejo de Florentino Pérez de vê-lo regressar ao Real Madrid, e em Itália pela carambola que essa mudança pode provocar. Por cá, tanta gente sem carta de condução a falar de um campeão de F1…

A iniciar sessão com Google...